A análise de dados extraídos de celulares apreendidos tem se consolidado como ferramenta central em investigações no Brasil. A Polícia Federal utiliza tecnologias capazes de recuperar mensagens, documentos, fotos e até conteúdos apagados, ampliando o alcance das apurações e permitindo o cruzamento de informações digitais com registros financeiros e operacionais.
Casos recentes evidenciam o impacto desse recurso. Em uma operação que investigou um esquema de lavagem de dinheiro estimado em R$ 1,6 bilhão, a perícia em dados armazenados no iCloud de um dos envolvidos foi determinante para conectar extratos bancários, conversas e documentos. A ação resultou na prisão dos artistas MC Ryan SP e MC Poze do Rodo. Metodologia semelhante também foi aplicada no caso do Banco Master, revelando diálogos entre o CEO Daniel Vorcaro e outros investigados.
O acesso às informações depende das condições do aparelho. Quando o celular está desbloqueado, a coleta pode ser feita diretamente. Em situações de bloqueio, é necessária autorização judicial para requisitar dados a empresas como Google e Apple, responsáveis por armazenar informações em nuvem.
Dados recentes indicam a dimensão desse tipo de solicitação. Entre janeiro e junho de 2025, o Google recebeu mais de 38 mil pedidos de autoridades brasileiras, atendendo cerca de 77%. No mesmo período, a Apple respondeu a 79% de mais de 7.500 solicitações relacionadas a dispositivos e a 81% das 3.678 requisições envolvendo dados em nuvem.
Além do acesso remoto, a perícia digital utiliza softwares especializados para extrair dados diretamente dos aparelhos. Ferramentas como Cellebrite UFED e Magnet Greykey, restritas a autoridades, permitem acessar históricos de aplicativos como WhatsApp e Telegram, inclusive recuperando informações apagadas. Isso ocorre porque a análise vai além do conteúdo visível, alcançando bancos de dados e registros internos do sistema.
Antes da extração, especialistas enfrentam o desafio de desbloquear o dispositivo. Quando a senha não é fornecida, são exploradas vulnerabilidades específicas do modelo, em um processo que pode demandar tempo e conhecimento técnico avançado.
Após o acesso, os dados são coletados em diferentes níveis. Entre eles estão a extração lógica, voltada a informações básicas; a lógica avançada, que inclui dados de aplicativos; a análise de sistemas de arquivos, que alcança registros ocultos; e a extração física, capaz de recuperar dados diretamente da memória do aparelho. Um mesmo dispositivo pode passar por múltiplas etapas.
O material obtido é então processado por ferramentas como o IPED (Indexador e Processador de Evidências Digitais), desenvolvido pela própria Polícia Federal. O sistema organiza grandes volumes de dados e permite identificar padrões relevantes, como movimentações financeiras ou vínculos entre investigados.
Embora aplicativos de mensagens utilizem criptografia para proteger comunicações durante o envio, essa proteção não impede o acesso quando o aparelho já foi comprometido. Segundo o Telegram, ao superar as barreiras do sistema operacional, o acesso obtido equivale ao do próprio usuário, permitindo a visualização de conteúdos, inclusive aqueles com recursos de privacidade reforçada.
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